sábado, fevereiro 16, 2013


Eu estava de passagem, mas você acabou não sendo passageira

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O percurso era sempre o mesmo. Eu saía de casa às sete e meia, passava na mesma cafeteria barata todos os dias, sem exceção, por mais atrasado que estivesse, comprava meu café amargo e passava a ignorar qualquer movimento a minha volta. Não era vício, era necessidade, basicamente eu precisava me manter acordado, ou fingindo me preocupar com o que era dito, enquanto frequentasse a faculdade. Quanto a isso, não era necessidade, havia se tornado um tipo de obrigação desde que meu sustento passou a depender dessa boa ação. Na real, isso costumava se encaixar na minha maneira de deixar a vida passar, era fácil, simples, não tinha como dar errado ou acontecer algum imprevisto por excesso de expectativa. Eu podia me surpreender ou me decepcionar, mas estaria no controle. Me dar bem ou me ferrar, mas é assim que as coisas funcionam.

Não era exatamente uma filosofia de vida, muito menos um assunto que devesse ser questionado, opinado ou discutido. Não era pra ser nada disso, mas dias chuvosos parecem ser um tipo de aviso que alguma coisa vai desandar, nem que seja um atraso causado por uma aglomeração infernal de pessoas. É impressão ou isso soou ironicamente romântico? “E-R-A”(— Nunca gostei de dias chuvosos, mas passei a gostar de você. Tão fria que me deixa com vontade de te esquentar. — Eu não estava distraído, nem procurava por alguém, mas daí esbarrei em você. Posso ter gostado disso.) Foram insanas as coisas que aconteceram naquele mês, principalmente as que saíram da minha boca. Começando daquele jeito, afinal, não podia ter sido diferente. É que enfrentar a chuva ou a cafeteria lotada foi uma escolha fácil aquele dia, tão fácil quanto descobrir qual era meu problema com as pessoas a ponto de escolher continuar na minha jornada solitária com um novo método pra me manter acordado. Na hora fez sentido escolher me molhar (— Se eu precisasse enfrentar várias tempestades até te encontrar, eu o faria. — “Você pode pegar um resfriado se continuar com essa roupa molhada.” “Você também. Me ajuda a tirar a minha que eu te ajudo com a sua.”) Patético. Tão patético quanto a minha atitude de te ver e não fazer nada, te deixar ir como se o seu lugar já tivesse sido ocupado outra vez, por alguém sem o seu nome, rosto, perfume ou suas manias. Como se eu não tivesse me desprendido da minha rotina por você.

Se naquele dia a chuva foi um motivo pra eu mudar minha rotina, o motivo depois dela passou a ser alguém que não tinha medo de se molhar. E do mesmo jeito, com a mesma rapidez, passei a tentar me guiar para longe da tempestade, mas foi como pegar um resfriado e não conseguir se livrar da tosse, como ter a casa invadida pela água e não conseguir ajeitar a bagunça. Continuo parecendo romântico, o personagem clichê que sempre tem respostas diante de um desafio, mas é que você esqueceu aquele livro do Sparks no meu apartamento e apesar de ter achado o trecho riscado um desperdício de palavras "havia uma parte dela esperando que ele voltasse", uma parte de mim quis fazer desse livro um motivo para voltar. Um desperdício de tempo e um desvio de percurso, só pra variar.

Mas é que eu sempre acreditei ter o controle de tudo e você, saber o rumo desses encontros casuais. Isso me fez perceber que ambos – controle e rumo – estavam praticamente perdidos, totalmente fora do meu alcance, assim como você gritou aos quatro cantos que estaria. No final, o que a gente ganha é a certeza de que não adianta querer estar um passo adiantado, se não tiver alguém pra caminhar ao seu lado. É isso. Sabe aquelas coisas que você vivia dizendo e que eu não era capaz de compreender? Está tudo sendo rabiscado nas folhas em branco, nas paredes vazias, nas frases sem sentido, no orgulho que eu tenho insistido em deixar para trás. Eu tenho escrito a continuação de uma história que, tenho certeza, poderia ter sido diferente. Vai lá saber, se nossos passos não se cruzam novamente num dia sem tempestade, numa esquina qualquer, enquanto estivermos tentando encontrar novos caminhos.

Perder o controle, e se deparar com o mesmo rumo. Só não demora a sair de casa, o céu está nublado mais uma vez.

Oi, pessoal. Fazia um bom tempo que não escrevia, apesar de adorar fazer isso, não sei o que acontece que eu sinto um certo bloqueio às vezes. Sim, eu devo ser meio complexada com isso, porque acabo não dando tanto crédito a minha imaginação/inspiração/devaneios quanto deveria. Ou seja, meu bloqueio geralmente tá relacionado com minha falta de memória (o que me leva a pensar que eu realmente deveria andar com qualquer coisa que me permita anotar as luzes no fim do túnel que me aparecem, pela madruga rs)
Espero que gostem e se sintam à vontade pra compartilhar os textos de vocês. Pode ser por comentário ou através do formulário

Espero que tenham gostado! Ah, curtam a fan page do blog, em breve teremos novidades por lá. Se você leu até aqui, muito obrigada.


4 comentários:

Hevilyn Souza disse... [Responder Comentário]

Lindo texto :)
To seguindo, pode seguir de volta por favor ? comecei pouco tempo com o meu blog
http://rabiscosalapiss.blogspot.com.br/

Esvazie-se disse... [Responder Comentário]

@Hevilyn Souza Obrigada! Fico feliz que tenha gostado.

Daniela disse... [Responder Comentário]

Que lindo texto, devia investir mais neles. Confesso que me identifiquei várias vezes, parabéns de verdade, pelo texto e pelo blog. Beijos!

Esvazie-se disse... [Responder Comentário]

@Daniela Você não sabe o quanto me fez feliz ver seu comentário! Obrigada pelas palavras e pela visita. Beijos e volte sempre.

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